8 de abr de 2013

"O gagau de Tetê e as horas extras"



Os primeiros efeitos da PEC das domésticas começaram a ser sentidos lá em casa. Ontem, às 21:00, na cozinha, minha filha Tetê, de dois anos e meio, interpela a babá, como de costume:

- “Deta”, quer gagau!
- Tetê são nove horas. Não posso mais fazer o seu gagau.
- Quer gagaaaauuuu!
- Eu agora só trabalho oito horas por dia, Tetê. Acordei às seis e meia da manhã. Fiz seu café, acompanhei você até o colégio, arrumei o seu quarto, coloquei o seu almoço, brinquei durante toda a tarde, dei o seu banho e fiz outras coisas mais.
- Detaaaaaaaa!!!
- Não adianta gritar, Tetê. Já trabalhei mais de oito horas, hoje.
- Eu quer gagauuuuuuu.
- Fale com Dilma.
- Ôoooooxe Deta! Quer gagau!
- Vá pedir a seu pai.

Tetê se dirigiu até o meu quarto, entrou, bateu a porta e disse:

- Papai, Deta num quer fazer o gagau de Tetê. Biga com ela!
- Vá pedir novamente, filha.
- Quer gagauuuuuuu.
- Papai não sabe fazer, filha.
- Eu quer gagaaaaaauuuu, papaiiiii.
- Tetê, vá dormir. Papai não sabe fazer gagau e Deta já bateu o ponto. Vá deitar, filha!
- Bateu em quem?
- O ponto, filha;
- O que é isso, papai?
- Deixa pra lá! Deixa pra lá!
- Quer gagau!
- Mas filha...
- Quer gagaaaauuuuuuu.
- Assim papai vai ter que pagar hora extra a Deta, meu amor!
- Quer “oia etra” e gagau;
- Hã!?
- Quer “oia etra” dentro do meu gagau, papai.
- Não pode, filha.
- Papai, quer gagaaaaaauuuuuu e “oiaaaa eeeetra”!
- Ok, Filha, vamos lá na cozinha.

Quando chego na cozinha, escuto o som da TV vindo do quarto da babá. Eu suplico:

- Detaaaaa. Faz o gagau de Tetê aqui, por favor.
- Sr. Bruno, já trabalhei mais de oito horas hoje.
- Pôxa Deta. A menina tá com fome! Eu não sei fazer essa porra!
- O Senhor vai me pagar horas extras?
- Vamos fazer o seguinte: eu pego esses minutos em que você estará fazendo o gagau e compenso com a saída mais cedo na sexta-feira, ok!?
- Mas isso é possível?
- Sim, já que se trata de compensação dentro da mesma semana. Se assim não fosse, é que teríamos que nos socorrer do banco de horas que só tem validade se for instituído por acordo coletivo de trabalho....ah! Deixa pra lá!
- Não entendi nada que o senhor falou. Mas tá certo. Estou indo fazer o gagau!

Enquanto Deta fazia o gagau, Tetê esperava, esfomeada, sentada na sua cadeirinha, na cozinha. O gagau ficou pronto. Deta entregou a mamadeira a Tetê, que como de praxe, disse:

- Deta, eu quer dormir com você.
- Não posso, Tetê.
- Quer dormiiiiiir com vocêêêêê!
- Tetê, eu já trabalhei mais de oito horas hoje e...

Irritado, intrometo-me:

- Peraí! Você quer dizer que não pode dormir com ela?
- Veja só, Sr. Bruno. Se eu dormir sozinha, lá no meu quarto eu não estou trabalhando, portanto essas horas de sono não serão computadas na minha jornada de trabalho. Mas se eu dormir com Tetê no quarto dela, o senhor terá que me pagar horas extras porque estarei trabalhando, já que estarei ali, tomando conta dela, ainda que dormindo.
- Como é que uma pessoa pode tomar conta da outra dormindo?
- É lei, Sr. Bruno. É lei.
- Pôxa, e qual a diferença de dormir na sua cama e dormir no quarto de Tetê? De uma forma ou de outra você estará descansando, ora bolas!
- Na verdade, em ambas as hipóteses estarei à disposição e, portanto, o senhor terá que me pagar horas extras.

- Quer dormir com “oia etra”! – intromete-se Tetê.
- Tetê, o correto é horas extras e não “oia etra”. E você não pode dormir com isso não. Vá dormir! – Corrigi.
- Papai, tô de medo de “oia etra”.
- Papai também, filha!
- Quer dormir com você, papai!
- Papai também filha.
- Você vai dormir no banco?
- Como, filha?
- Você vai dormir no “banco de oia”?
- O correto é banco de horas filha. Não, papai não vai dormir no banco. Papai vai dormir na sua cama. E vamos logo antes que o monstro do adicional noturno venha nos pegar!
- Tô com medo do monstro do “aglicinal botuno” – Disse Tetê assustada.
- Não se preocupe, filha. Às cinco horas da manhã ele vai embora!

Nisso, a danada da babá entra no quarto e diz:

- Boa noite minha princesa!

Não deixo por menos:

- Boa noite, nada! Você trata a menina assim e ainda vem dar boa noite!?
- Ok, Sr. Bruno. Eu durmo com essa menina a dois anos, todas as noites. E não iria conseguir dormir mesmo lá no meu quarto sozinha não! Eu vou dormir é aqui com ela.
- Mas eu não vou pagar horas extras, não!
- Ah, Sr. Bruno! Eu vou dormir aqui de todo o jeito!
- É melhor você dormir no seu quarto mesmo, Deta!
- Eu vou dormir é aqui com Tetê!
- Êpa! Isso é ato de indisciplina e insubordinação. Eu posso lhe advertir, suspender e até mesmo demitir por justa causa.
- Então eu vou pro meu quarto.
- Deta?
- Diga, Sr. Bruno!
- Que coisa, essa lei, não!?
- Vamos esquecer essa lei, né Sr. Bruno? Vamos continuar como sempre foi?
- Vamos, Deta.
- Dilma não pensou na gente não!
- E ela pensou em quem Deta?
- Sei lá...

- Tô com medo de “Tilma” – interrompeu Tetê.
- Não é “Tilma”, Tetê. É Dilma! – Corrigi.
- Tô com medo dela, de “oia etra” e do monstro do “aglicinal botuno”!
- Papai também, filha! Papai também!
- Papai, canta pra eu dormir.
- Ok, filhinha. Papai vai cantar: “Nana nenê, que o FGTS vai pegar, a moleza foi embora, e o patrão vai se lascar...
- Tô com medo do “ebigetesse”
- É FGTS, filha.
- Tô com medo dele.
- Papai também, filha. Papai também! Amanhã papai ensina você a fazer o seu gagau sozinha, tá certo!? Senão todos esses bichos vão pegar Tetê!



Texto encontrado no facebook, feito por BRUNO M. FERNANDES.

Um comentário:

  1. KKKKKKKKKKKKKKKKK. Eu sei que o caso é sério e não é para rir, mas o texto foi uma forma bem humorada de dizer que estamos ferrados! KKKKKK.

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