3 de ago de 2013

Silêncio

" Uma vida inútil é uma morte prematura" (Von Goethe).

Que terei eu, afinal, desta vida?
No fim das contas, e as contas faço de dedos, devo aceitar minha condição..
Lembro de ter escrito algo num papel, não me lembro de o ter publicado. E assim se repetiu por anos e anos.
O sol fazia mal a minha vista. As cortinas mantinham-se fechadas. Vivíamos nós nesse silêncio. Mas que silêncio! Era um silêncio falador. Sim, o cheiro de úmido, de antigo, de maciço. Que divindade! O cheiro de úmido! De maciço, de antigo. Ou seria talvez esse o meu odor?
Oh, sim, é o meu odor. Sou uma caixa pútrida, agora. Ou já fui antes?
Procurei há tanto tempo descobrir o que se passava!  De início, que estou me lembrando, ele estava lá. Depois não estava mais.
Aí que começou o fim da eternidade; o silêncio não fala mais comigo e as divindades.
Com o badalar das noites que se seguiram, fui repetindo o que costumava fazer. Vejo agora que nada tem significado. É só rotina.
Agora eu me pergunto: Quem aqui há de segurar minha mão em meu leito? Nunca me importei com mais nada, senão o silêncio; e a única mão que me consolaria, consolei há muito.
No fim das contas, e as contas faço de dedo, devo aceitar minha condição.
Não fiz nada da minha vida. Não fiz nada da minha morte, e esta ronda meu tempo.
Uma coisa apenas é certa: sinto falta do meu silêncio.


Lady Viana

Sou Apenas um Fantasma

Sou apenas um fantasma
e é a segunda vez que vejo
aquela moça chorar.
Ah, se ele visse
como ela está tão triste...
 
Ela foi levada
pela Graça de Deus
em honra ao Rei e
jazia a minha vista
palidez tão alva
os olhos cerrados.
Sou apenas um fantasma
e é a última vez 
que a verei chorar.
 
Falo da esperança.
Sou apenas um fantasma
e me refiro à esperança.
Não é mulher humana
ou criança bendita.
Mas é algo que,
nesse mundo
acaba muito rápido.


Lady Viana

Cativeiro

Uma carta na mesa.
Café derramado, manchando uma parte do papel. Ainda dava para ler. "Cansei de viver nesse cativeiro." Mancha de café. "Acho que devo ir embora, então seu silêncio terá paz". Mancha de café.
Sentou-se na cadeira mais próxima, a carta amassada entre os dedos. Subiu a mão na cabeça. Parou. Pensou.
Só havia um lugar onde ela poderia estar. Mas não. Desse a ela um tempo. Um tempo para pensar se a decisão era errada ou... Se era a mais correta de sua vida.
         Nevaria muito em breve, e as coisas não eram mais as mesmas. Antigamente, a neve era tão feliz. Tão pura e simbólica. Dois dias. Dois dias.
         Buscá-la ou deixa-la partir? A escolha mais importante que teria de fazer. Logo pela manhã, sem sentir o cheiro de café forte da cozinha. Ou pela tarde, sem regar o jardim. A estufa ficava fechada na neve. Mas nesse tempo sem cuidados, a neve cairia sobre todas as espécies. À noite, sem o chá especial, cuja receita ela jurara nunca dizer.  
         Segundo dia, ou último. Meia noite e meia, mas já o dia seguinte. A cama parecia vazia e ainda maior que antes, enquanto o quarto parecia tão silencioso quanto um jazigo. A janela parecia trancada a sete chaves. Esperou o dia nascer.
         O carro não ligou por causa do frio. Pegou um táxi.
         “Pode me deixar aqui mesmo, que agora vou andando”, e pagou o marcado no taxímetro. Dois quarteirões de escuridão branca, uma neve de um metro já tomara a cidade. No fim de uma rua estreita, uma porta de madeira gasta.
         Batidas no carvalho.
         Ela mesma abriu.
         “O que veio fazer aqui?”. Perguntou serenamente.
         “O café manchou a outra parte da carta”, disse, em tom sério. “Queria que dissesse, olhando em meus olhos, o que estava escrito”.
         Silêncio.
         Ela foi a seus braços, e abraços.
         De volta ao cativeiro.




Lady Viana