20 de jun. de 2014

Benevolência - Lady Viana


Benevolência
Lady Viana

Sim, eu saberei
Quando te sentires
Insubstituível.

Sei que estarei
Onde precisares, onde for
Imprescindível.

Sei que errei
Quando me tornei
Indivisível.
Insensível.
Impossível.
Terrível.

Notei
Que me quebrei
Em pequenas partes.

Vê?
Passei a ver
[me]
Como um traste.

Trata [me]
Com desgaste
Arrasta
[me]
Por toda parte.

Tornei-me um peso
Para tua consciência
Agradeço a
[tua]
Paciência
Perdoa-me pela
Obsolescência
Então...
Compreenda a minha transparência.



Vejo agora tua prudência
E clemência.
Arrependo [me] agora
 da minha
Inocência.
Paciência...
Ah, a tua sapiência.
E, no entanto, a minha
Ausência...
Do outro lado, tua benevolência!
Paciência...
Paciência...









Viver - Lady Viana


Digo por ela...
Na vida há, de fato
Coisa mais bela.

Fácil é viver
E o dia é suportável.
Só se torna difícil à noite;
À noite é lamentável.

Para não sofrer muito
Não penso muito
Nem digo muito.
Assim, o momento será único.

Inútil...

Com o tempo, o tempo passa.
É só viver cada segundo.
Triste é, no entanto, viver sozinho e,
Lentamente, morrer a cada minuto.

                                                                         Lady Viana


6 de jun. de 2014

Lei da Palmada - Segundo Round

O Utopia já fez um post sobre a Lei da Palmada. A polêmica foi grande.
Agora que ela foi aprovada, aliás, sob o nome "Lei Menino Bernardo", a polêmica em redes sociais e círculos de pessoas está maior.

O Utopia comemora essa vitória, apesar de se entristecer por se fazer necessária a criação de uma nova lei redundante - o artigo 5º da Constituição Federal já ampara qualquer cidadão. Aliás, a criação de uma lei que considera crime descriminação de pessoas com Aids é outra redundância. Nesse mesmo artigo da Constituição há a "garantia" de igualdade e não-descriminação para todos. Mas isso é outra história.

Gostaríamos de esclarecer, para muitos cidadãos frustrados, que essa lei não quer interferir no que é chamado de "Modo de criar o meu filho", como tem explodido no facebook. O objetivo dela é proteger, e vamos enfatizar


Proteger as crianças que sofrem violência diária. Alguns pais revoltados estão lutando bravamente contra essa lei, mas ela visa assegurar os direitos contidos no ECA que garantem um ambiente seguro para viver.

Como o número de pessoas reclamantes está grande, gostaria de contar uma coisa que, aparentemente, não é assunto recorrente - acredito que esses pais não tenham conhecimento disso. Não julguemos, mostrarei aqui o que acontece em lares desestruturados para que tais senhores pais saibam também, afinal, eles acreditam fielmente que o governo lhes quer ditar regras.

Comecemos.



Esse documentário da Rede Record, de 2008(o vídeo é uma prévia do documentário completo), mostra um pouquinho do que é diário para muitas crianças e adolescentes no Brasil - e no mundo afora - e utiliza-se do cinismo para deixar claro que "os primitivos", e é claro que, ao dizer isso, o jornalista estava sendo bastante irônico, tratam suas crianças com mais respeito que os "civilizados" povos modernos. *Fatos comprovados, não especulações.

Para finalizar, eu poderia dizer quinhentas palavras, mas nenhuma delas diria tão bem quanto esse documentário do Fantástico exibido em 2013.





*pelo menos no caso dos grupos selecionados.

16 de abr. de 2014

Brasil...

"Dilma, deixa eu te falar uma coisa!
Sou Fernanda Melo, médica, moradora e trabalhadora de Cabo Frio, cidade da baixada litorânea do estado do Rio de Janeiro.
Este ano completo 7 anos de formada pela Universidade Federal Fluminense e desde então, por opção de vida, trabalho no interior. Inclusive hoje, não moro mais num grande centro. Já trabalhei em cada canto...
Você não sabe o que eu já vi e vivi, não só como médica, mas como cidadã brasileira. Já tive que comprar remédio com meu dinheiro, porque a mãe da criança só tinha R$ 2,00 para comprar o pão.
Por que comprei?
Porque não tinha vaga no hospital para internar e eu já tinha usado todos os espaços possíveis (inclusive do corredor!) para internar os mais graves.
Você sabe o que é puxadinho?
Agora, já viu dentro de enfermaria? Pois é, eu já vi. E muitos. Sabe o que é mãe e filho dormirem na mesma maca porque simplesmente não havia espaço para sequer uma cadeira?
Já viu macas tão grudadas, mas tão grudadas, que na hora da visita médica era necessário chamar um por um para o consultório porque era impossível transitar na enfermaria?
Já trabalhei num local em que tive que autorizar que o familiar trouxesse comida ( não tinha, ora bolas!) e já trabalhei em outro que lotava na hora do lanche (diga-se refresco ralo com biscoito de péssima qualidade) que era distribuído aos que aguardavam na recepção.
Já esperei 12 horas por um simples hemograma. Já perdi o paciente antes de conseguir um mera ultrassonografia. Já vi luva descartável ser reciclada. Já deixei de conseguir vaga em UTI pra doente grave porque eu não tinha um exame complementar que justificasse o pedido.
Já fui ambuzando um prematuro de 1Kg (que óbvio, a mãe não tinha feito pré natal!) por 40 Km para vê-lo morrer na porta do hospital sem poder fazer nada. A ambulância não tinha nada...
Tem mais, calma! Já tive que escolher direta ou indiretamente quem deveria viver. E morrer...
Já ouvi muito desaforo de paciente, revoltando com tanto descaso e que na hora da raiva, desconta no médico, como eu, como meus colegas, na enfermeira, na recepcionista, no segurança, mas nunca em você.
Já ouviu alguém dizer na tua cara: meu filho vai morrer e a culpa é tua? Não, né? E a culpa nem era minha, mas era tua, talvez. Ou do teu antecessor. Ou do antecessor dele...
Já vi gente morrer! Óbvio, médico sempre vê gente morrendo, mas de apendicite, porque não tinha centro cirúrgico no lugar, nem ambulância pra transferir, nem vaga em outro hospital?
Agonizando, de insuficiência respiratória, porque não tinha laringoscópio, não tinha tubo, não tinha respirador?
De sepse, porque não tinha antibiótico, não tinha isolamento, não tinha UTI?
A gente é preparado pra ver gente morrer, mas não nessas condições.
Ah Dilma, você não sabe mesmo o que eu já vi! Mas deixa eu te falar uma coisa: trazer médico de Cuba, de Marte ou de qualquer outro lugar, não vai resolver nada!
E você sabe bem disso.
Só está tentado enrolar a gente com essa conversa fiada. É tanto descaso, tanta carência, tanto despreparo...
As pessoas adoecem pela fome, pela sede, pela falta de saneamento e educação e quando procuram os hospitais, despejam em nós todas as suas frustrações, medos, incertezas...
Mas às vezes eu não tenho luva e fio pra fazer uma sutura, o que dirá uma resposta para todo o seu sofrimento!
O problema do interior não é falta de médico. É falta de estrutura, de interesse, de vergonha na cara. Na tua cara e dessa corja que te acompanha!
Não é só salário que a gente reivindica. Eu não quero ganhar muito num lugar que tenha que fingir que faço medicina. E acho que a maioria dos médicos brasileiros também não.
Quer um conselho?
Pare de falar besteira em rede nacional e admita: já deu pra vocês!
Eu sei que na hora do desespero, a gente apela, mas vamos combinar, você abusou!
Se você não sabe ser "presidenta", desculpe-me, mas eu sei ser médica, mas por conta da incompetência de vocês, não estou conseguindo exercer minha função com louvor!
Não sei se isso vai chegar até você, mas já valeu pelo desabafo!"
(Fernanda Melo)

10 de abr. de 2014

Vitória


                " Selos e cartões no piano. Vidro do vaso no chão. As flores estão secas. A água manchou o carpete. A cortina rasgou. Janela estava aberta. Bateu e fechou. As notas estão desafinadas. Há ratos no porão. Uma das velas apagou. As outras estão derretidas. O frio entrou pela porta da frente. O tapete está dobrado. A madeira está carcomida. O tabaco acabou. O ópio também. Há ócio, porém.
                O brioche apodreceu. O queijo está no ponto. O vinho fermentou. A rolha caiu no chão. Rolou. Passou pela mesa. Passou pela cadeira. Passou pelas escadas. Parou na parede. A taça suja ao chão. Ainda inteira, possui rachaduras.
                A janela da cozinha, parcialmente aberta. Parcialmente consertada. Parcialmente de madeira. Sem vidro. Sem cacos. Sem pedaços. A parede, com frestas. A pia entupida. A pia encardida. Também carcomida. Pedra partida.
                Sa...pa...ti...nhos no chão. Cabem na minha mão. O caminho com pegadas. A trilha está errada. A cadeira pregada ao chão. Pequena decepção. Sa-pa-tinhos. Na minha mão.
                Há um bonnet rasgado no mancebo. Outrora tratado com zelo. Caixas com sebo. Janelas fechadas. Há medo!...
                A noite já foi embora, acalme-se agora. A luz do dia está por vir...
                Pode dormir."


Lady Viana